Crie o sossego.

A mão que acariciava forte, subitamente ficou lenta, fraca e sem firmeza.

Os braços fortes que outrora mostravam segurança, aos poucos perdeu o vigor e passou a necessitar de outrem.

Uma voz branda dizia: crie o sossego…

Aqueles olhos serenos, cheios de vida e brilho. Hipnotizaria qualquer um que ousasse olhar intensamente. Mais uma vez aquela voz insurreta e ardilosa dizendo: “crie o sossego”.

Aquele colo forte era irrefutável. O medo e insegurança não ousava aproximar-se. Suas histórias eram um afago à alma. Mas de maneira discreta tudo acabou, o tempo passou e restam saudades.

Não podes mais segurar-me em teus braços…

Tua sensibilidade em ajudar acabou que precisando sutilmente de ajuda. Aquela voz firme, cheia de autoridade, se tornou meiga e delicada. Hoje, precisa de percepção apurada para decifrar o que queres.

Procure o sossego… – não, essa voz eu não quero mais ouvir.

O nome que escolheras para mim, ele não faz mais sentido. Afinal, não lembras quando precisas de algo. Nunca esquecei que foi tu que me deras.

Como queria que dissesse tudo que viveras. Escreveria um livro sobre suas experiências, mas compreendo que tudo está guardado em algum lugar especial, mesmo que não possas lembrar.

Sei que um dia precisarás de sossego. Mas eu, quando esse dia chegar, não terei sossego.

Infinitamente te amarei, vovó.


Fotografia: Paolo Bendandi

@paolobendandi

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