Debaixo do sol

Em uma manhã ensolarada e bastante quente de verão, Clara encontrava-se um tanto inquieta com várias tarefas, e quem nunca? Quem nunca quase todo dia se encontra assim? Depois de alguns metros andando, Clara esbarra em algumas crianças que vem correndo em sua direção, e o seu celular cai de sua mão. Clara se abaixa para pega-lo e de repente olha para frente.

A imagem que viu trouxe uma sensação estranha, quem diria que um vestido vermelho de criança fizesse ela parar para pensar sobre a época em que as coisas tinham uma cor rosada e esmaecida, uma vez que a vida hoje fosse vista por ela com outros olhos, e, falando em olhos, a infância dela ficou marcada pelos olhos claros de um garoto que amava uma certa camisa listrada de sorriso sincero que cativou seu coração juvenil.

Clara fitava o vestido vermelho, a realidade é que Clara trazera a lembrança de sua mãe comprando o saudoso vestido vermelho ao qual ela vestia com muito carinho. Obviamente, ela cresceu, trocou o vestido por uma blusa da mesma cor, com algumas lantejoulas coloridas de plástico, recordou-se que no quarto dia de aula da 3• série, o dia ao qual vestia aquela blusa, se sentia triste pelo fato de que a matemática era o assunto do dia, mas então um pássaro passa pela janela que toma sua visão e logo faz com que ela se perca em sua imaginação. Imaginou do que brincaria quando tocasse o sinal.

Mas algo a fez voltar para dentro da sala, mas especificamente para as carteiras atras dela, e notou que, em algumas carteiras atras, um menino a encarava, como se tivesse algo o prendendo dentro dos seus olhos. Depois do susto que tomou, Clara rapidamente olha para o quadro negro, e dessa vez se esforça ao máximo para entender o que é que tudo aquilo significa para conseguir esquecer o desconforto daquele momento, mas ela volta a olhar pra trás, e ele ainda a encara.. Clara novamente se vira com pressa, mas, volta a olhar novamente, mas dessa vez ela não teve pressa em olhar pra trás, ela se virou lentamente.

O garoto em questão se chamava João. João e Clara tinham 9 anos quando descobriram o primeiro amor, que por sorte foi numa aula de matemática, o que fez com que aquele dia tivesse graça. Depois da aula, João veio na direção de Clara.

– E aí?

– Sim?

– Você é nova na escola, né?

– Sim.

– Vamos brincar? Só tá faltando você!

– Sim

– Só sabe falar sim?

– Só sabe encarar?

30 segundos. Foi o tempo suficiente para Clara de 22 anos voltar no tempo. Ela não tinha ideia do que havia acontecido, mas de alguma forma, aquele vestido vermelho a fez lembrar da garotinha que sonhava em viajar pelo mundo, em construir um tipo de traje voador, de ter um armário com vestidos e vermelhos e casar com o príncipe João. A pergunta era: onde ela foi parar? Onde a Clara que era sonhadora e divertida estava? Depois de olhar para um pássaro, derrubar seu telefone, abaixar-se para pega-lo, ela a encontraria ali, dentro do vestido vermelho, onde desde o início sempre esteve. O problema é que um dia deixou olhar para os pássaros, e desde então, se deixou levar pela vida debaixo do sol. Debaixo das obrigações. O vestido vermelho simbolizava sua essência, os pássaros a fizeram lembra-la.

O tempo deve nos amadurecer, não nos apagar.

Fotografia: Allef Vinicius

@seteales

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