Trocaram olhares no ônibus e nunca mais se encontraram (parte 2).

Em um dia rotineiro de segunda-feira, Júlio foi ao trabalho e como de costume, pegava o ônibus no mesmo horário e no mesmo local. Seu pai morrera quando o rapaz era bem pequeno, e com isso, ele passou a sustentar sua casa.

A mãe do jovem estava muito doente e ele não tinha tempo para pensar em distrações, ademais, era o homem da casa. Ao chegar do trabalho percebeu que sua mãe Aurora estava muito mal e imediatamente ficou entristecido.

-Filho, vem aqui que a mãe quer te falar uma coisa -falou Aurora com muita dificuldade.
-Oi, mamãe. Estou aqui. Não faça esforço para não ficar pior…
-Querido, mamãe não vai ficar muito tempo aqui com você, mas por favor, me promete uma coisa? -falou sua mãe com os olhos cheios de lágrimas.
-Pode dizer, vou fazer tudo que a senhora me pedir -disse o rapaz segurando as mãos de sua mãe.
-Sua vida foi dedicada em cuidar das contas, da casa, dos afazeres e de mim. Chegou a hora de você procurar alguém para viver com você. Sei que não se preocupa com isso, mas você está bonito, jovem… me prometa meu filho, não quero que fique sozinho quando eu partir.
-Não diz isso mãe, por favor. Não me imagino sem a senhora…

Nesta mesma madrugada, Aurora morreu com taquicardia. Isso trouxe muita tristeza para Júlio. Porém, como ensinara sua mãe “nunca podemos desistir da felicidade”, e com isso ele continuou buscando-a.

Todos os dias pensara no que sua falecida mãe havia lhe pedido. Certo dia no ônibus, fechou os olhos, lembrou da promessa e decidiu procurar alguém para amar. Ele entendeu que não podia viver sozinho para sempre. E então, ao abrir os olhos, olhou para o lado e viu uma bela moça no outro ônibus. Ele olhou o quanto ela era linda e imediatamente teve certeza de que seria ela, tinha que ser aquela mulher. Ele decidiu com todas as forças encontrá-la.

Anos se passaram e ele nunca esqueceu aquele olhar, aquele rosto, o brilho daqueles olhos. Júlio ficou muito doente e acabou sendo diagnosticado com uma doença progressiva e que aos poucos roubava suas memórias. Ele começou a esquecer o nome dos lugares, das pessoas e tudo que vivera anteriormente. O único lugar que ele não deixava de ir era ao parque no quarteirão que morava.

-Olá, tudo bem?
-Oi, tudo sim. Você mora aqui?
-Sim, moro há bastante tempo nesta rua. Na verdade já estava indo embora, mas a moça que me busca ainda não veio e não posso caminhar sozinha. Fazem 2 anos que deixei de enxergar.
-Entendo… sinto muito. Eu também moro há bastante tempo nesta rua. Porém, não lembro de você. Ah, talvez seja pelo problema que tenho. Bom, não sei se é um problema. Eu não consigo lembrar de memórias antigas. Pode ser que amanhã eu não consiga lembrar seu nome, seu rosto. Isso é estranho pra você? -disse Júlio com ar de riso.
-Nada é mais estranho do que ter visto a beleza das coisas um dia e hoje não conseguir mais. Seria bem mais facil se eu tivesse nascido assim, dessa forma não sentiria tanta saudade de olhar as coisas. Seu passado ficou para traz. Você tem alguma coisa de especial que deixou lá?
-Não, na verdade não sei. Mas estou aqui vivendo o hoje sem poder lembrar do que aconteceu ontem…
-Maria, vamos! Desculpas pela demora, eu estava entregando seu livro para uma menininha que bateu na porta e disse que queria muito conhecê-la. A garota quer muito descobrir quem é o misterioso rapaz que você olhou naquele ônibus -falou a mulher que cuidava de Maria.
-Tenho que ir agora. Foi um prazer conhecê-lo -falou Maria com um pequeno sorriso.

Maria nunca esqueceu aquele olhar trocado em sua mocidade naquele ônibus. Porém, não teria como vê-lo novamente devido ter pedido sua visão. Ela tinha certeza que onde o encontrasse lembraria dele, mas infelizmente não poderia enxergar.  Júlio, por consequências da vida, perdeu suas memórias e com elas a que tinha daquela tarde, naquele ônibus.

O amor da vida deles acabou se tornando um “desconhecido encontro” numa praça à tarde. O médico de Júlio o proibiu de sair, pois ele sempre se perdera nos lugares. Maria mudou de cidade e foi para uma clínica de idosos onde morava no local e ao mesmo tempo buscava cura para sua enfermidade.

A vida pode distanciar duas vidas, dois corpos, mas jamais dois corações. Independente das lutas, dos problemas, das renúncias, quando é verdadeiro, sempre existe um reencontro. O sentimento de Maria e Júlio foi real, existiu! Mas não resistiu.

Às vezes, as oportunidades estão bem na sua frente, mas por imaturidade elas decidem trilhar outro caminho e você as deixa ir embora. Não deixe para fazer amanhã o que pode ser feito hoje. Não deixe seu amor passar sem que você o ame! Tudo que você mais precisa pode estar aí, então largue de besteiras e abrace-o, ame-o.



Fotografia: Matthew Bennett

@mbennettphoto

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