Trocaram olhares no ônibus e nunca mais se encontraram.

Em uma cidade distante localizada na região metropolitana, diariamente, Maria pegava o ônibus para ir à escola. Como de costume, ela sempre olhava as pessoas de uma forma intensa; sabia que não era comum, se ela contasse para qualquer pessoa com certeza a chamariam de louca.


Ela sempre buscava surpreender as pessoas com pequenos gestos, como por exemplo, fazer bilhetes anônimos para deixar no assento; mesmo com os movimentos bruscos do ônibus ela escrevia, levar chocolate para as amigas e colocar na mesa delas sem que percebessem, escrever cartas para pessoas que encontrou poucas vezes… Maria era extremamente cuidadosa com tudo que fazia e, principalmente no quesito “vida amorosa”. A moça acreditava que a pessoa que iria amá-la chegaria no momento certo, e por isso não tinha pressa.


-Maria? Está tudo bem?


-Claro, Ana. Estou bem sim, só estava olhando aquele casal de idosos. Viu como ele a protegeu ao atravessar a rua? Ele trocou o lado para que ela ficasse mais protegida.


-Nossa, como você percebeu isso, Maria?


-Ana, isso é algo raro, tudo que não é comum chama minha atenção, por isso você me chamou muito tempo e não te ouvi -falou a jovem com um riso singelo.


-Eu não acredito muito nessas coisas de amor, Maria.


-Ana, Ana! Olha aquilo, vê como aquele bebê acaricia a mãe dele, e de forma que ela nem percebe. Isso é tão formidável.


-Nossa, não havia percebido isso -disse Ana muito impressionada com o que vira.


-Está vendo aquele rapaz?


Onde?


-Aqui no ônibus, perto do motorista. Ele fala com os amigos e é como se estivesse sorrindo com o olhar, ele nem precisa mostrar o sorriso para que possamos perceber isso.


O ônibus chegou ao destino, mais um dia de aula na Escola Estadual Floreios do Saber. Ao término da aula, mais uma viagem naquele querido e rotineiro ônibus.


Ao passar do terceiro quarteirão, o motorista parou em um semáforo e por poucos segundos ficou no local. Esse tempo foi o suficiente para Maria olhar para o lado e vê um rapaz franzino e aparentemente tímido no ônibus ao lado. A moça e o rapaz trocaram olhares intensos, parecia que o mundo tinha parado naquele momento, o coração da garota acelerou e imediatamente ela pensou: esse é amor da minha vida, não sei o porquê, mas eu sinto isso. O que eu faço? Escrevo e entrego um recado aqui pela janela mesmo? Ah, não… não vai dar tempo. De fato, não deu para fazer nada que ela pensara. Mas tudo ficou bem, ela nunca esqueceu aquele olhar.

Passaram-se anos, Maria se formou, cuidou da mãe e nunca chegou a se relacionar com nenhum homem, ademais, sempre esteve preocupada com os seus parentes e sua carreira.

Maria esteve doente e ficou internada no hospital local, durante todo o tempo naquele leito ela escreveu sobre tudo que vivera, seu modo de ver o mundo, e sobre tudo quanto fazia com que os seus olhos brilhassem. Contudo, não sabia ela que o rapaz do “olhar” estava no quarto ao lado. Ela recebeu alta, foi para casa e continuou sua vida.


Com tudo isso, eles trocaram olhares no ônibus e nunca mais se encontraram. Tudo poderia ser diferente, mas para isso deveria ter uma atitude de Maria. Na vida acontecem muitos acasos e diversas coincidências, mas a decisão de saber lidar com isso é muito pessoal. Às vezes o amor da vida de alguém está mais próximo do que se possa imaginar, e por coisas fúteis fica impossível vê-lo.


Valorize os momentos simples, gestos incomuns, pessoas sensíveis, momentos marcantes. O que para muitos pode parecer “bobo”, isso pode ser a única coisa que você precisa fazer para ser feliz ou fazer alguém feliz.


Fotografia: Filippo Ascione
@taywka

2 comentários sobre “Trocaram olhares no ônibus e nunca mais se encontraram.

  1. Alguém que te seguir. disse:

    Caramba… Isso me fez lembra de alguém que gostei muito porem fui deixado para trás, e oq me faz pensa e refletir se eu soubesse q aquele abraço q ela me deu fosse o último eu não á deixaria ir embora. Me lembro ate hj do olhar, cheiro,vestido tudo. Haa se eu soubesse.

    Gostei do post. Até “Eu acho”

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    • Stefhane Moreno disse:

      É lindo pensar nas pessoas que marcaram nossas vidas. Fiquei feliz por saber que essa crônica te fez refletir. Parabéns por sua sensibilidade. ❤⚘

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