Um jeito de olhar…

Em uma pequena e recatada cidade vivia Elza com os seus pais que, já idosos, de certa forma tornava a vida da jovem cada vez mais cheia de responsabilidades e afazeres. Porém, mesmo com sua labuta, a moça não esquecia do seu sonho: se tornar uma professora. Ela estudava em uma faculdade na cidade vizinha.

Elza percorria uma longa jornada até chegar na universidade. Durante todo o trajeto a jovem observava tudo em seus mínimos detalhes. Ela amava rever os amigos quando chegava na aula e entre todos eles, Eduardo era o mais próximo.

-Oi, Elza! Quais as experiências nessa viagem de hoje? -Perguntou o seu amigo com muita euforia.

-Hoje foi incrivelmente lindo, Dudu. As árvores estavam airosas, dona Maria ainda estava na calçada de casa com as amigas, os garotos estavam jogando futebol naquele campo da avenida Alexandrino… tudo estava tão belo que parece que o tempo voou pra chegar aqui hoje -Disse Elza com os olhos brilhando de tamanha alegria.

-Uau, que coisa linda. Estou encantado com tudo isso. Você sempre me surpreende em, mocinha -Eduardo respondeu com ar de regozijo por tê-la como amiga.

-Vamos, vamos. Nossa aula vai começar…

Um ano se passou e todos os dias, como era de costume, Elza viajava em sua imaginação durante a viagem à escola. Contudo, houve um mês diferente de todos os outros. Tudo parecia estar em um luto profundo, ela não entendia ao certo o motivo de tudo aquilo. Os dias passavam e tudo parecia não voltar a ser o que era antes, até as conversas paralelas dos seus colegas dentro do ônibus foram acabando… o silêncio passou a ter lugar nas ruas, no ônibus, nos corredores da escola e em tudo quando Elza parava para observar.

-Oi, Elza. Tudo bem? Onde você estava que não a encontro mais nos corredores da escola? E me conta, como foi o trajeto de hoje até aqui? -O rapaz falou com muita empolgação.

-Bom, Eduardo… hoje não tenho o que lhe contar -Respondeu a moça com bastante perspicácia.

-Mas e as casas? Os carros? Dona Maria ainda estava na rua com as amigas conversando? E aqueles garotos, ainda estavam jogando bola no campo?

-Preciso ir agora. Depois conversamos, Eduardo -Falou com bastante tristeza e era notório isso.

-Elza! Não vou te deixar ir. Você sempre falou e eu sempre estive aqui para te ouvir; agora eu que preciso falar -Disse Eduardo segurando a mão de Elza e olhando profundamente nos olhos dela.

-Tudo bem, pode falar -Respondeu a jovem muito surpresa pelo modo que seu amigo falou.

-Olha, por muito tempo da minha vida eu observei as coisas, as pessoas, os ambientes, mas chegou um momento que tudo mudou, as pessoas mudaram. Ao ouvir você contando todas essas histórias eu viajava no passado e em todas as lembranças, por um pequeno intervalo de tempo, elas retornavam. Parecia que eu voltava no tempo. E arrisco dizer o que está acontecendo: as pessoas não saem mais para conversar nas ruas, os colegas do ônibus passam horas nas redes sociais e com isso não conversam como antes, nas ruas não existem todas aquelas pessoas de antes e, todos aqueles garotos não frequentam mais o campo local para brincar, não é isso?

-Como você sabia? É exatamente isso que está acontecendo. Por que as pessoas mudam tanto? Eu só queria entender tudo isso… -Com os olhos cheios de lágrimas Elza abraçou Eduardo.

-O tempo passa e as pessoas mudam. Porém, você pode decidir guardar tudo que apreendeu até aqui ou simplesmente apagar de suas lembranças. Eu decidi guardar todos os momentos bons que passei, Elza. O mundo está tomado por maldades e eu penso que é algo sublime o fato de ter memórias como essas que você possui.

-Então, eu decido guardar tudo isso, e ainda mais: eu pretendo não somente observar, mas proporcionar esses momentos na minha vida -Disse Elza com muita decisão e disposta a ser diferente.

-Estou muito feliz por você! Essa é a melhor escolha. Não se deixe entristecer com essas mudanças nas pessoas, que essa correria do mundo não possa afetar você.

-Obrigada, Eduardo. Foi muito bom ouvir você. A partir de hoje irei me tornar a pessoa que mais admiro. Agora vamos, temos uma aula agora -Pegou a mão de Eduardo e saíram alegres para assistirem a aula.

Anos se passaram e tudo mudou. Elza e Eduardo se formaram, decidiram namorar após o curso, casaram e nos dias atuais os dois jogam futebol juntos, viajam e observam tudo registrando cada momento na câmera fotográfica. Estão muito felizez pois souberam que o Bernardo está chegando, Elza está grávida. A jovem se tornou uma mulher que decidiu proporcionar a si mesma todos esses momentos e ensinar a seu filho sobre essas mudanças que acontecem, e com isso, ele estará preparado para vivenciá-las de modo natural.

Caro leitor, você pode se entristecer com as pessoas e com toda essa correria que vive, porém, todos esses sentimentos não podem fazer com que você deixe de viver feliz e criar momentos felizes. Sua vida depende exclusivamente de suas escolhas, de como pretende ver o mundo. Ainda que tudo se corrompa, que a maldade ande por aí destruindo vidas, não se deixe levar. Viva, ame, observe e acima de tudo, valorize a vida, ela é única.

Fotografia: Allan Filipe Santos Dias

@allan_fdias

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