1998

Em um belo e distante vilarejo, vivia Luna com os seus pais. Sua infância foi marcada pelas tarefas domésticas e nas poucas horas livres, costumava ir à biblioteca da cidade para ler os seus livros preferidos, ela era apaixonada pelos romances. Todos os dias, repetidamente, a franzina e simpática jovem estava às 15h no local, o mesmo fechava às 18h. A moça vivia aventuras ao folhear os livros; a alegria e imaginação fazia com que perdesse a noção do tom de voz, sempre era repreendida para que pudesse se conter.

-“Há mais perigo em teus olhos do que em vinte espadas!” – exclamou Luna como se estivesse falando com alguém.

-Luna, não precisa ler dessa forma, você vai atrapalhar os demais visitantes.

-Desculpas, Maria. Sou apaixonada por Shakespeare e essa é uma das mais belas frases dele.

-Eu entendo que você ama ler. Acha que não lhe observo quando leva vários livros todos os dias para sua casa? Mas preciso que se contenha. Tudo bem?

-Certo, certo. Prometo me conter. Maria, posso lhe perguntar uma coisa?

-Claro, Luna. O que deseja saber?

-Por que as demais jovens não falam comigo? Sei que sou estranha, mas a única coisa que me faz esquecer é a literatura. Entende? – Falou a moça com o semblante de tristeza.

-Luna, não é estranho ser diferente. As diferenças te fazem ser singular. No momento certo as pessoas verão essa singularidade e acredite: elas irão fazer de tudo para tê-la por perto.

-Nunca escutei algo tão lindo em toda minha vida, Maria. Obrigada. E sabe de uma coisa? Quero ser professora!

-Nossa, Luna! Você será uma excelente educadora. Nunca desista, mesmo que os infortúnios aconteçam, persista.

Como sempre, Luna saía da biblioteca quando as portas estavam sendo fechadas. Aquele caminho até sua casa foi o melhor de todos os anos. Os pensamentos e ideias pareciam borbulhar naquela cabeça inquieta. No meio do caminho encontrou um garoto, aparentemente com seus treze anos.

-Olá, tudo bem? Por que você está tão cabisbaixo? Posso te ajudar com alguma coisa?

-Oi, está tudo bem… – hesitou o garoto ao falar com Luna.

-Você gosta de ler? Tenho alguns livros e se quiser eu te empresto um, quando terminar eu pego com você. Esse é de Cecília Meireles, posso ficar com ele uma semana e após esse prazo devo devolver – Falou Luna com muita certeza.

-Mas é que, eu, assim… Eu não sei ler, sou o único dos irmãos que não se importou muito com essas coisas. Sempre ajudei meu pai com a plantação.

-Posso te ensinar! Se quiser você separa duas horas por dia na biblioteca e eu te ensino, pode ser? – Disse a garota com muita euforia.

-Você faria isso por mim? Faria mesmo? Moça, você é diferente de todas as outras pessoas que conheci.

Naquele momento veio à tona sobre a singularidade que Maria havia falado horas antes.

– Começaremos amanhã. Te espero, tá bom? Tenha uma ótima noite.

Passam-se anos e o garoto que Luna ensinou se tornou um renomado professor de uma escola na cidade vizinha. Periodicamente eles marcavam encontros em família, até que certo dia o filho mais novo de Luna disse: “Mãe, quero ser igual a senhora e o tio, já aprendi o alfabeto, posso dar aula quando?”

Todos se divertiram com a pergunta do garoto. E com tudo isso, Luna decidiu escrever sobre o tamanho do amor pela educação e sobre a influência dos mestres na vida dos pequenos e grandes alunos. Vinte anos se passaram e até hoje Luna nunca esqueceu aquele encontro e o que seu filho disse na hora do chá.

Não se pode duvidar da ânsia de alguém pelo conhecimento. Todos os dias a vida proporciona momentos para dividir os saberes adquiridos ao longo da vida.

A educação é capaz de mudar pensamentos, vidas e até trajetos outrora programados. Não retenha para si os conhecimentos. O saber se torna mais precioso quando partilhado.

Fotografia: Ben White

@aaronburden

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